O QUERO-QUERO É UM DOS SÍMBOLOS DO RIO GRANDE DO SUL
Tu sabia que o quero-quero não é apenas uma ave comum dos campos, mas um dos símbolos mais vivos e autênticos da identidade do Rio Grande do Sul? Presente no cotidiano do pampa, ele carrega em si muito mais do que sua aparência marcante ou seu canto inconfundível. O quero-quero representa uma forma de viver, um estado de espírito, uma maneira de estar atento ao mundo ao redor. Nos campos abertos, onde o horizonte parece não ter fim e o vento percorre livremente cada coxilha, sua presença é constante, quase como se fosse parte inseparável da própria terra. Ele não apenas habita o pampa — ele pertence a ele de maneira profunda, simbólica e histórica, sendo reconhecido não só pela ciência, como Vanellus chilensis, mas principalmente pelo sentimento do povo gaúcho que o adotou como um verdadeiro guardião dos campos.
Desde muito antes de ser oficializado como ave-símbolo do estado em 1979, o quero-quero já fazia parte da vida no Rio Grande do Sul. Sua convivência com o homem do campo atravessa gerações, sendo testemunha silenciosa — e ao mesmo tempo barulhenta — das rotinas campeiras. Enquanto o gado pasta lentamente e as tropilhas de cavalos crioulos se movem com elegância pelo campo, lá está ele, sempre atento, observando cada detalhe ao seu redor. Sua figura, com o peito negro contrastando com o branco e o tom terroso das asas, se destaca na paisagem de forma natural e imponente. Não é uma beleza extravagante, mas sim uma beleza firme, característica de tudo aquilo que nasce e se molda no pampa gaúcho.
Chamado de “sentinela dos campos”, o quero-quero ganhou esse título por um motivo muito claro: ele vê antes, percebe antes e reage antes. Seu grito estridente não é apenas um som qualquer — é um aviso, um sinal de alerta que ecoa pelas vastidões do sul. Quem vive no interior aprende cedo a interpretar esse chamado, entendendo que ali há movimento, que algo mudou, que alguém se aproxima. Esse comportamento vigilante transforma o quero-quero em uma espécie de guardião natural do ambiente, criando uma conexão quase invisível entre ele e todos que compartilham aquele espaço.
Mas não é apenas na observação que ele se destaca. Quando se trata de proteger seu território, especialmente seus ninhos feitos diretamente no chão, o quero-quero demonstra uma coragem impressionante. Ele não recua, não se esconde, não abandona o que é seu. Ao contrário, parte para a ação com voos rasantes, abrindo as asas, vocalizando intensamente e exibindo seus esporões. É um espetáculo de defesa que mistura instinto, estratégia e presença. Mesmo sendo uma ave de porte relativamente pequeno, sua atitude é gigante — e isso, por si só, já carrega um simbolismo profundo dentro da cultura gaúcha.
Esses esporões, aliás, são muitas vezes cercados de curiosidade. Apesar de parecerem ameaçadores, não possuem veneno. Ainda assim, fazem parte de um conjunto de comportamentos que reforçam a imagem do quero-quero como um ser firme, decidido e corajoso. Ele não precisa ser grande para ser respeitado — precisa apenas saber se posicionar. E talvez seja exatamente isso que faz com que tantas pessoas se identifiquem com ele.
No cenário do pampa, onde a luz do sol é intensa e revela cada detalhe da paisagem, o quero-quero ganha ainda mais destaque. Em dias de céu azul profundo e luminosidade extrema, sua silhueta em voo se torna ainda mais impressionante. As asas abertas, o grito ecoando, o movimento preciso — tudo nele chama atenção. Ao mesmo tempo, quando está no chão, caminhando entre as gramíneas e flores do campo, ele mantém a mesma postura vigilante, como se estivesse constantemente equilibrando tranquilidade e alerta.
A integração entre o quero-quero e o ambiente ao seu redor é algo que vai além da biologia. Ele faz parte de um ecossistema rico, onde convivem diferentes espécies de plantas e animais, todos adaptados à dinâmica do pampa. O gado angus, símbolo da força da pecuária gaúcha, pasta calmamente ao fundo, enquanto os cavalos crioulos representam a tradição, a resistência e a elegância do povo sulista. E ali, entre todos esses elementos, o quero-quero se posiciona como uma figura central, conectando natureza e cultura de forma única.
Existe também um aspecto emocional nessa relação. Para muitos gaúchos, o som do quero-quero faz parte das memórias mais profundas. É o som da infância no interior, das tardes de sol, das manhãs frias no campo. É um som que marca presença, que cria identidade, que desperta lembranças. Ele não é apenas ouvido — ele é sentido.
Ao longo do tempo, o quero-quero deixou de ser apenas um habitante do pampa para se tornar um símbolo reconhecido e respeitado. Sua escolha como ave-símbolo do Rio Grande do Sul não foi por acaso. Ela representa valores que estão profundamente enraizados na cultura local: vigilância, coragem, pertencimento e respeito à terra.
E talvez seja justamente essa combinação que torna o quero-quero tão especial. Ele não é apenas bonito, não é apenas curioso, não é apenas presente. Ele é significativo. Ele carrega uma mensagem, uma identidade, uma história que se mistura com a própria história do Rio Grande do Sul.
Quando se olha para uma cena como essa — campos a perder de vista, gado e cavalos ao fundo, céu azul intenso e um grupo de quero-queros dominando o primeiro plano — o que se vê não é apenas uma paisagem bonita. É um retrato vivo de uma cultura. É a essência do pampa traduzida em imagem.
E no centro dessa imagem, como protagonista absoluto, está ele: o quero-quero. Sempre atento. Sempre firme. Sempre representando, com simplicidade e força, tudo aquilo que faz do Rio Grande do Sul um lugar único.
Fonte: Grupo Bairrismo Gaúcho – Fotos: Reprodução Facebook





