Mato Grosso do Sul completa 49 anos entre conquistas econômicas, riquezas naturais e desafios sociais

Mato Grosso do Sul completa 49 anos neste domingo, 11 de outubro de 2026, com uma trajetória marcada pela expansão econômica, pela diversidade cultural e pela transformação de seu território.

Desde a criação, em 1977, o Estado se consolidou como um dos principais polos brasileiros do agronegócio, ampliou sua participação na indústria e conquistou reconhecimento internacional por suas riquezas naturais. Entretanto, o crescimento da produção e das exportações convive com desafios históricos relacionados à pobreza, à educação, à saúde, à infraestrutura e à distribuição de oportunidades.

A data representa mais do que uma celebração. É também uma oportunidade para avaliar os resultados alcançados em quase cinco décadas de autonomia administrativa e discutir os caminhos necessários para que o desenvolvimento econômico se traduza em melhores condições de vida para toda a população.

Com Campo Grande como capital, Mato Grosso do Sul reúne 79 municípios e ocupa uma posição estratégica na região Centro-Oeste, fazendo fronteira com Bolívia e Paraguai, além de cinco estados brasileiros: Mato Grosso, Goiás, Minas Gerais, São Paulo e Paraná.

Sua localização, associada à produção agropecuária, aos recursos minerais e à biodiversidade, oferece condições para ampliar a atividade econômica. O principal desafio é garantir que essas vantagens também contribuam para reduzir as desigualdades sociais e regionais.

A história de Mato Grosso do Sul começou muito antes da divisão

Embora a criação oficial tenha ocorrido em 11 de outubro de 1977, a formação histórica do território sul-mato-grossense é muito anterior à separação de Mato Grosso.

Antes da ocupação colonial, a região já era habitada por diferentes povos indígenas, cujas culturas, línguas e tradições permanecem fundamentais para a identidade estadual.

Entre esses povos estão Guarani, Kaiowá, Terena, Kadiwéu, Kinikinau, Guató, Ofaié e Atikum, que integram a diversidade indígena presente no Estado.

A ocupação europeia avançou durante o período colonial, em meio a disputas territoriais, expedições e atividades econômicas relacionadas à pecuária, ao comércio e à exploração dos recursos naturais.

A região também foi marcada pela presença de comunidades tradicionais, ribeirinhas e quilombolas, além de migrantes que contribuíram para a formação de sua população.

Guerra do Paraguai marcou a história da região

Um dos acontecimentos mais importantes para a formação histórica do atual Mato Grosso do Sul foi a Guerra do Paraguai, entre 1864 e 1870.

O conflito atingiu diretamente o território que hoje integra o Estado, especialmente localidades próximas à fronteira.

A ocupação paraguaia de áreas do sul da antiga província de Mato Grosso e os confrontos militares deixaram consequências econômicas, sociais e demográficas.

A Retirada da Laguna, ocorrida em 1867, tornou-se um dos episódios mais conhecidos da guerra. A operação militar brasileira, marcada por dificuldades de abastecimento, doenças e ataques inimigos, foi posteriormente relatada pelo escritor Alfredo d’Escragnolle Taunay.

O episódio permanece como referência histórica da participação da região no conflito.

Após a guerra, o fortalecimento da ocupação territorial, a expansão da pecuária e o desenvolvimento de atividades comerciais contribuíram para modificar a economia regional.

Erva-mate, pecuária e ferrovia impulsionaram o desenvolvimento

Entre o final do século XIX e o início do século XX, a exploração da erva-mate teve papel importante na economia do sul de Mato Grosso.

A atividade, especialmente associada à Companhia Matte Larangeira, movimentou extensas áreas próximas à fronteira com o Paraguai e influenciou a organização econômica e política regional.

Ao mesmo tempo, a pecuária avançava pelo território, consolidando grandes propriedades rurais e estabelecendo relações comerciais com outras regiões brasileiras.

Outro marco foi a construção da Estrada de Ferro Noroeste do Brasil, que alcançou o território sul-mato-grossense nas primeiras décadas do século XX e estabeleceu uma ligação ferroviária entre o interior paulista e Corumbá.

A ferrovia contribuiu para o crescimento de municípios como Três Lagoas, Campo Grande e Aquidauana, facilitando o transporte de mercadorias, a circulação de pessoas e a integração econômica.

Com o passar das décadas, a expansão agrícola, a abertura de rodovias e a chegada de migrantes de diferentes estados brasileiros aceleraram o desenvolvimento regional.

Movimento divisionista ganhou força ao longo do século XX

A criação de Mato Grosso do Sul foi resultado de um processo político que atravessou décadas.

O movimento divisionista defendia a separação da região sul do antigo Mato Grosso, argumentando que as diferenças econômicas, geográficas e administrativas dificultavam o atendimento das necessidades locais.

A grande extensão territorial do antigo Estado e a distância entre centros administrativos e áreas produtoras estavam entre os argumentos apresentados pelos defensores da divisão.

O movimento ganhou organização política durante o século XX, com participação de lideranças regionais e setores econômicos interessados em maior autonomia administrativa.

Em 1932, durante a Revolução Constitucionalista, integrantes do movimento chegaram a defender a criação de uma unidade federativa no sul de Mato Grosso, mas a iniciativa não resultou em uma divisão permanente.

Nas décadas seguintes, o debate continuou até ganhar condições políticas para sua concretização durante o regime militar.

Lei de 1977 criou oficialmente Mato Grosso do Sul

A separação foi formalizada em 11 de outubro de 1977, quando o presidente da República, Ernesto Geisel, sancionou a Lei Complementar nº 31, criando o Estado de Mato Grosso do Sul.

A medida ocorreu durante a ditadura militar, dentro de uma política federal de reorganização territorial e administrativa.

A legislação estabeleceu a divisão do antigo Mato Grosso em duas unidades federativas, mantendo Cuiabá como capital de Mato Grosso e definindo Campo Grande como capital do novo Estado.

Apesar da criação em 1977, a instalação oficial ocorreu somente em 1º de janeiro de 1979, quando Mato Grosso do Sul passou a funcionar como unidade federativa autônoma.

O primeiro governador foi Harry Amorim Costa, nomeado pelo governo federal para conduzir a implantação da administração estadual.

A organização inicial exigiu a estruturação de secretarias, órgãos públicos, serviços administrativos e instituições responsáveis pelo funcionamento do novo Estado.

Nos anos seguintes, Mato Grosso do Sul passou por mudanças políticas e administrativas, acompanhando o processo de redemocratização do Brasil.

Em 1982, foram realizadas as primeiras eleições diretas para o governo estadual, vencidas por Wilson Barbosa Martins, que assumiu o cargo em 1983.

A partir desse período, a população passou a participar diretamente da escolha de seus governadores, consolidando uma nova etapa da história política sul-mato-grossense.

Campo Grande se consolidou como centro administrativo e econômico

Escolhida como capital, Campo Grande ampliou sua importância política, administrativa e econômica após a divisão.

A cidade passou a concentrar órgãos estaduais, instituições públicas, universidades, serviços especializados e atividades empresariais.

O crescimento urbano também trouxe desafios relacionados à mobilidade, à habitação, ao saneamento e à expansão dos serviços públicos.

Ao longo das décadas, outros municípios fortaleceram suas vocações econômicas.

Dourados consolidou-se como importante centro agropecuário, comercial, educacional e de prestação de serviços.

Três Lagoas ganhou destaque nacional com a expansão da indústria de celulose.

Corumbá manteve sua relevância na mineração, na pecuária, no turismo e nas relações comerciais com a Bolívia.

Ponta Porã ampliou sua importância nas atividades comerciais e na integração com o Paraguai.

Naviraí, Nova Andradina, Maracaju, Chapadão do Sul, Sidrolândia e Costa Rica, entre outros municípios, passaram a ocupar posições importantes na produção agropecuária e na diversificação econômica.

Agronegócio e indústria transformaram a economia estadual

Nas últimas décadas, Mato Grosso do Sul ampliou significativamente sua capacidade produtiva.

A modernização do campo, a utilização de tecnologias agrícolas e os investimentos em infraestrutura contribuíram para a expansão das lavouras de soja, milho, cana-de-açúcar e outras culturas.

A pecuária bovina permanece entre as principais atividades econômicas, enquanto a avicultura, a suinocultura e a agroindústria também participam da geração de empregos e renda.

O setor florestal ganhou importância com a expansão das plantações de eucalipto e a instalação de grandes unidades industriais de celulose.

Esse processo transformou a estrutura econômica de municípios do leste do Estado e fortaleceu a participação sul-mato-grossense no comércio internacional.

Em 2025, Mato Grosso do Sul registrou US$ 10,7 bilhões em exportações, o maior valor anual de sua história, segundo dados da Secretaria de Meio Ambiente, Desenvolvimento, Ciência, Tecnologia e Inovação (Semadesc), com base nas estatísticas do ComexStat.

Produtos como celulose, soja e carne bovina estão entre os principais responsáveis pela presença estadual no mercado externo.

Apesar desses resultados, permanece o desafio de ampliar a industrialização da produção, fortalecer empresas locais e garantir empregos com melhores salários.

O crescimento econômico também precisa alcançar pequenos produtores, agricultores familiares e trabalhadores que ainda enfrentam dificuldades para acessar crédito, tecnologia e novos mercados.

Mineração oferece oportunidades e exige responsabilidade ambiental

A mineração integra a história econômica de Mato Grosso do Sul, especialmente na região de Corumbá, onde existem importantes reservas de ferro e manganês.

A exploração desses recursos contribui para a atividade industrial, a arrecadação e a geração de empregos.

Entretanto, por envolver recursos naturais não renováveis, a mineração exige planejamento de longo prazo, fiscalização e medidas de recuperação ambiental.

A atividade precisa produzir benefícios duradouros para os municípios, incluindo infraestrutura, qualificação profissional e diversificação econômica.

O desafio é evitar que a riqueza mineral seja explorada sem deixar alternativas de desenvolvimento para as comunidades que dependem diretamente do setor.

Pantanal, Bonito e Serra da Bodoquena são patrimônios naturais

Além da força produtiva, Mato Grosso do Sul possui um dos mais importantes patrimônios ambientais do Brasil.

O Pantanal, reconhecido internacionalmente por sua biodiversidade, abriga uma grande variedade de espécies animais e vegetais e sustenta atividades relacionadas à pecuária tradicional, à pesca e ao turismo.

A região de Bonito e da Serra da Bodoquena tornou-se referência em turismo de natureza, com rios de águas transparentes, cavernas, cachoeiras e áreas de conservação.

Essas riquezas representam oportunidades econômicas, mas também exigem políticas permanentes de preservação.

Os incêndios florestais, o desmatamento, a degradação de nascentes e as alterações no regime das águas estão entre os problemas que demandam atenção.

A conservação ambiental precisa acompanhar o crescimento econômico, garantindo condições para que as próximas gerações também possam usufruir desse patrimônio.

Rota Bioceânica pode abrir nova etapa de integração

Entre os projetos estratégicos para o futuro estadual está a Rota Bioceânica, corredor de integração internacional que pretende conectar o Brasil aos portos do norte do Chile, passando por Paraguai e Argentina.

A proposta busca ampliar as alternativas logísticas para o escoamento da produção e facilitar o acesso aos mercados internacionais.

Mato Grosso do Sul ocupa posição central nessa conexão, especialmente pela localização de Porto Murtinho, na fronteira com o Paraguai.

A integração poderá estimular investimentos em transporte, armazenagem, comércio, turismo e prestação de serviços.

Entretanto, os benefícios dependerão da preparação dos municípios, da qualificação dos trabalhadores e da capacidade de transformar a movimentação de cargas em oportunidades econômicas locais.

Outro desafio é a recuperação da Malha Oeste, sistema ferroviário que historicamente contribuiu para a integração regional, mas sofreu com a deterioração de sua infraestrutura e a insuficiência de investimentos.

Rodovias seguras, ferrovias eficientes e planejamento logístico serão fundamentais para reduzir custos e ampliar a competitividade da economia estadual.

Crescimento econômico ainda convive com pobreza e desigualdade

Apesar dos avanços econômicos, Mato Grosso do Sul continua enfrentando problemas sociais que atingem milhares de famílias.

Dados da Síntese de Indicadores Sociais do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), divulgados pela Semadesc, apontam que aproximadamente 40 mil pessoas saíram da pobreza entre 2023 e 2024.

Mesmo com essa redução, em 2024, cerca de 17,5% da população estadual ainda vivia abaixo da linha de pobreza considerada pelo levantamento.

O percentual de pessoas em situação de extrema pobreza era de 1,6%.

Os indicadores demonstram que o crescimento econômico, embora importante, não elimina automaticamente as desigualdades.

Para ampliar os resultados sociais, são necessárias políticas que combinem geração de empregos, qualificação profissional, acesso à moradia, saneamento básico, transporte e proteção às famílias em situação de vulnerabilidade.

O desenvolvimento também precisa alcançar comunidades indígenas, populações rurais, bairros periféricos e municípios com menor capacidade de investimento.

Educação e saúde permanecem entre os principais desafios

A qualidade dos serviços públicos é um dos fatores decisivos para avaliar os resultados do desenvolvimento estadual.

Na educação, os desafios incluem melhorar a aprendizagem, reduzir a evasão escolar, valorizar professores e ampliar o acesso ao ensino técnico e superior.

O fortalecimento da formação profissional também é necessário para preparar trabalhadores para as transformações da indústria, do agronegócio e dos serviços.

Na saúde, a população ainda depende da ampliação do atendimento especializado, da realização de exames e da oferta de tratamentos em diferentes regiões.

A concentração de serviços de maior complexidade nos principais centros urbanos pode exigir deslocamentos de pacientes que vivem em municípios distantes.

Garantir atendimento adequado, ampliar a prevenção e reduzir as dificuldades de acesso são medidas essenciais para melhorar a qualidade de vida.

Os investimentos em saúde e educação precisam acompanhar a expansão econômica e populacional, evitando que o crescimento das cidades aumente as desigualdades existentes.

Diversidade cultural construiu a identidade sul-mato-grossense

A identidade de Mato Grosso do Sul foi formada pela convivência de diferentes povos, tradições e manifestações culturais.

As influências indígenas, paraguaias, bolivianas e de migrantes de diversas regiões brasileiras estão presentes na culinária, na música, na linguagem e nos costumes.

O tereré, reconhecido como uma das principais tradições culturais do Estado, representa essa convivência e faz parte do cotidiano de grande parcela da população.

Pratos como a sopa paraguaia, a chipa e o sobá também refletem a diversidade de influências que ajudaram a construir a cultura regional.

A música sul-mato-grossense ganhou projeção nacional com artistas como Almir Sater, Geraldo Espíndola, Paulo Simões, Tetê Espíndola e Helena Meirelles, que contribuíram para valorizar elementos da identidade cultural do Estado.

A preservação desse patrimônio é importante para manter viva a memória coletiva e reconhecer a contribuição das diferentes comunidades para a formação regional.

Aos 49 anos, desafio é transformar riqueza em qualidade de vida

Ao completar 49 anos de criação, Mato Grosso do Sul reúne conquistas que demonstram sua capacidade de crescimento e transformação.

O Estado ampliou sua produção, fortaleceu a indústria, conquistou mercados internacionais e consolidou atividades econômicas que sustentam milhares de empregos.

Também construiu instituições próprias, desenvolveu centros urbanos e ganhou projeção pela riqueza ambiental e cultural.

Entretanto, a proximidade do cinquentenário reforça a necessidade de enfrentar problemas que atravessam gerações.

A redução da pobreza, a melhoria dos serviços públicos, a preservação ambiental e a ampliação das oportunidades precisam acompanhar o crescimento da economia.

O aniversário estadual deve reconhecer a contribuição de trabalhadores urbanos e rurais, empresários, professores, profissionais da saúde, agricultores, povos indígenas, comunidades tradicionais e de todos aqueles que participaram dessa construção.

Mais do que celebrar indicadores econômicos, o momento exige avaliar como a riqueza produzida chega à população.

Em 11 de outubro de 2027, Mato Grosso do Sul completará 50 anos de criação, marco que permitirá revisitar sua trajetória e discutir os resultados de quase meio século de autonomia.

O cinquentenário será uma oportunidade para reconhecer avanços, preservar a memória histórica e estabelecer compromissos concretos com o futuro.

Aos 49 anos, Mato Grosso do Sul tem motivos para comemorar, mas sua maior conquista ainda precisa ser construída: garantir que o desenvolvimento econômico se transforme em dignidade, oportunidades e melhores condições de vida para todos os sul-mato-grossenses.

Fonte: Jornal do Estado – Foto: Reprodução

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